RESUMO
O homem contemporâneo vive um mundo de incertezas, onde muitos dos antigos paradigmas que o senso comum considerava como absolutos se desmoronam com incrível velocidade. Esta volatilidade de sentidos é observada com ampla nitidez na busca do sagrado: as religiões tradicionais são deixadas de lado ou misturadas a práticas esotéricas, místicas e ocultas, tentativa humana de explorar o mundo através de um enfoque holístico, que reimprima na vida a magia outrora perdida. Neste contexto de construção de uma nova realidade, a percepção e manifestação do sagrado não desaparecem, mas, seguindo a mentalidade de seu tempo, transformam-se. A religiosidade assume um caráter individualista, imediatista e descompromissado, restaurando conceitos e práticas da antiguidade, em uma tentativa clara de reencantamento do mundo, agora sob a perspectiva da sociedade globalizada. Filosofias orientais invadem a dimensão religiosa do mundo ocidental, numa mistura explicitamente paradoxal. Deste epicentro nasce a cultura da Nova Era, movimento que busca restaurar a tradição sagrada do homem postulando um saber místico, pretendendo conectar o ser humano ao transcendente partindo não de instituições específicas, mas de conhecimentos e práticas do esoterismo, ocultismo e magia.
Palavras-chave: Nova Era; Subjetivismo; Consumismo.
ABSTRACT
The contemporary man lives in a world of uncertainties, in which many of the old paradigms that common sense considers as absolutes are falling apart with incredible speed. This volatiliness of senses is observed with wide clearness in the search of sacred: traditional religions are left behind or mixed to esoteric, mystic and occult practices, in a human try of exploring the world through a holistic focus, that reprints on life the magic once lost by it. In this context of building a new reality, the perception and manifestation of sacred do not disappear, but, following the mentality of its time, changes. The religion aspect assumes an individualistic character, immediative and with no commitment, restoring concepts and practices of antiquity, in a clear try of making the world enchanted once more, now under the perspective of globalized society. Oriental philosophies invade the religion dimension of occidental world, in an explicit and paradoxical mixture. From this epicenter born the New Age culture, movement that tries to restore the human sacred tradition by claiming a mystical knowledge, trying to connect human being to the transcendent not by an specific institution, but by knowledge and practices of esoterism, occultism and magic.
Key-words: New Age; Subjectivism; Consumerism.
O homem contemporâneo vive um mundo de incertezas, onde muitos dos antigos paradigmas que o senso comum considerava como absolutos se desmoronam com incrível velocidade. Esta volatilidade de sentidos é observada com ampla nitidez na busca do sagrado: as religiões tradicionais são deixadas de lado ou misturadas a práticas esotéricas, místicas e ocultas, tentativa humana de explorar o mundo através de um enfoque holístico, que reimprima na vida a magia outrora perdida. Neste contexto de construção de uma nova realidade, a percepção e manifestação do sagrado não desaparecem, mas, seguindo a mentalidade de seu tempo, transformam-se. A religiosidade assume um caráter individualista, imediatista e descompromissado, restaurando conceitos e práticas da antiguidade, em uma tentativa clara de reencantamento do mundo, agora sob a perspectiva da sociedade globalizada. Filosofias orientais invadem a dimensão religiosa do mundo ocidental, numa mistura explicitamente paradoxal. Deste epicentro nasce a cultura da Nova Era, movimento que busca restaurar a tradição sagrada do homem postulando um saber místico, pretendendo conectar o ser humano ao transcendente partindo não de instituições específicas, mas de conhecimentos e práticas do esoterismo, ocultismo e magia.
Palavras-chave: Nova Era; Subjetivismo; Consumismo.
ABSTRACT
The contemporary man lives in a world of uncertainties, in which many of the old paradigms that common sense considers as absolutes are falling apart with incredible speed. This volatiliness of senses is observed with wide clearness in the search of sacred: traditional religions are left behind or mixed to esoteric, mystic and occult practices, in a human try of exploring the world through a holistic focus, that reprints on life the magic once lost by it. In this context of building a new reality, the perception and manifestation of sacred do not disappear, but, following the mentality of its time, changes. The religion aspect assumes an individualistic character, immediative and with no commitment, restoring concepts and practices of antiquity, in a clear try of making the world enchanted once more, now under the perspective of globalized society. Oriental philosophies invade the religion dimension of occidental world, in an explicit and paradoxical mixture. From this epicenter born the New Age culture, movement that tries to restore the human sacred tradition by claiming a mystical knowledge, trying to connect human being to the transcendent not by an specific institution, but by knowledge and practices of esoterism, occultism and magic.
Key-words: New Age; Subjectivism; Consumerism.
SECULARIZAÇÃO, SUBJETIVISMO E NOVA ERA: UM BREVE HISTÓRICO
Vivemos um tempo de grandes e constantes mudanças. A sociedade contemporânea, em seu viver frenético, mutável e transnacional, tornou institucional a era do descartável, do imediato, do prazer e da estética. Paradigmas seculares, calcados na unidade nacional e cultural e, sobretudo, religiosa, caíram por terra, espalhando seus fragmentos pelas fronteiras do mundo globalizado. Neste contexto, a ausência de referências concretas e o relativismo dominaram o campo do sagrado, imprimindo-lhe a marca da pós-modernidade: um desespero espiritual, causado pelo vazio existencial. Esta crise, que abalou os fundamentos da crença e da ciência, teve origem na segunda metade do século XIX com a proclamação da “morte de Deus” e culmina na própria desconstrução espiritual do século XX, verificada no período comumente chamado de “pós-guerra”. O anúncio da “morte de Deus” por Zaratustra (Nietzsche), no século XIX, abriu uma chaga crônica no universo da consciência humana, que vai da exaustão do pensamento metafísico ao abrandamento dos valores éticos e morais do Ocidente. A morte de Deus, neste sentido, configura-se como a própria morte do eu, pois, “uma vez perdido o contato com o transcendente, a existência no mundo já não é mais possível” (ELIADE, 1996a). A conseqüência imediata desta constatação se dá na ausência de sentidos para o viver, crise da consciência que se estende até nossos dias. A falta de referências sólidas, que expliquem de forma convincente os porquês da vida e forneçam modelos mínimos de um viver que faça sentido, faz com que o homem se oriente, sobretudo, por aquilo que lhe impressiona e que lhe parece razoável em determinado momento: é a sociedade do fantástico, das aparências, ditadura da imagem alimentada pelo consumismo de massa global.
Os avanços da física e da tecnologia possibilitaram, no século XX, uma nova revolução industrial, que modificou radicalmente as bases da sociedade. O mundo ficou menor com o advento do automóvel, das aeronaves e, sobretudo, com a explosão dos meios de comunicação de massa. A ciência e suas comprovações, sob a insígnia máxima do “cientificamente comprovado”, foram elevadas ao posto de grandes detentoras da verdade, as reais depositárias dos conhecimentos e certezas humanos. Sigmund Freud, considerando que o ser humano atual busca, na religião, amparo, proteção e conforto para o seu mal estar, acreditava que o progresso da ciência faria com que a religião perdesse sua influência sobre o homem. O pai da psicanálise considerava a religião como “neurose obsessiva universal da humanidade”. Contudo, todo este avanço tecnológico não foi suficiente para preencher o vazio existencial do homem e curar as feridas abertas com a secularização do mundo: o homem permanecia um ser a vagar sem referências de onde estava e, principalmente, de onde iria chegar. O mundo deixou aos poucos de ser um lugar encantado e sacralizado, para se tornar um local profano, comum. Muito embora tenha condições de explicar e dominar o espaço natural de forma extraordinária, o ser humano continua a caminhar infeliz pela vida. Visto sob este referencial, o domínio científico, por si só, não conseguiu preencher o perpétuo vazio existencial humano.
Neste novo deserto da consciência humana, a evolução industrial e as ações mercadológicas encontraram solo fértil para se desenvolverem. Frente a elas havia um potencial e vasto mercado consumidor, seres humanos ávidos por algum conteúdo que lhes fornecesse sentido para o viver. Tem início, pois, a corrida desenfreada pelo consumo, a filosofia do “ter para ser”, a idolatria do mercado. Paralelamente, o avanço dos meios de comunicação permitiu ao mundo ocidental acessar o universo oriental, marcadamente místico e pitoresco. Tradições e filosofias do budismo, hinduismo, xamanismo, druidismo, yôga, hermetismo e tantas outras saltaram aos olhos dos novos consumidores, que enxergaram, nestes conhecimentos, uma possibilidade de ressignificarem sua existência.
A humanidade dá início, pois, a uma tentativa de ressacralizar a vida, construindo uma nova verdade a partir do subjetivismo religioso. Neste contexto surge o movimento intitulado Nova Era, um reencantamento do mundo que se dá, em grande parte, através do mercado de consumo, conforme sustentado por Leila Amaral (2000a), ao afirmar que:
os indivíduos, com suas convicções e crenças, recorrem a um mercado de bens simbólicos, os centros holísticos, para satisfazer suas necessidades pessoais. Uma atitude pragmática de aproveitar o aproveitável para atingir fins particulares, sejam eles materiais – saúde, prosperidade – ou espirituais – de enriquecimento e fortalecimento interior, através da afirmação positiva do verdadeiro eu.
A nova consciência que emerge nas sociedades humanas apresenta-se, portanto, plural, resgatando tradições e práticas das mais diversas. É a marca do holismo, que representa o desejo humano para a integração de todas as coisas, valor coerente com o contexto globalizado. Tem-se aí, mais uma vez, a contribuição de Leila Amaral (2000a), quando diz que:
pelo juntar de forças vindas de outras culturas e da natureza, busca-se intensificar a força do próprio desejo: o recompor de uma unidade que fora rompida e, por esse gesto, desencadear sentidos não previstos e descobrir vínculos que se tornaram invisíveis com a modernidade.
Esta concepção holística, que integra todos os seres e perpassa todas as manifestações culturais, é também sustentada pelo físico Fritjof Capra (2003a):
Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes.
Nestas novas águas da construção histórico-social-espiritual humana, surgem diversas correntes Nova Era, que também se afirmam como holísticas ou universais, considerando que o conhecimento do sagrado está além de uma religião em específico, mas que reúne a gnose de toda a humanidade. Estes conhecimentos não precisam necessariamente de ser comprovados empiricamente e têm como meta obter controle sobre o meio ambiente, de modo que objetivos específicos possam ser atingidos. O termo religião, inclusive, é geralmente substituído por magia neste contexto: “o termo magia denota um complexo de crenças e ações sobre as bases e meios, através dos quais pessoas e grupos podem tentar controlar seu meio ambiente para alcançar os seus fins” (AMARAL, 2000a).
O retorno à religiosidade, neste sentido, ocorre através da difusão destas práticas e conceitos esotéricos, ocultos e mágicos. Sociedades iniciáticas, ordens, confrarias e correntes espiritualistas passam a difundir um novo conhecimento religioso, que bebe de diversas fontes. Um retorno plural ao sagrado, à dimensão transcendental, num movimento individual que tem por objetivo mover o coletivo rumo a níveis mais elevados de consciência, ativando nos homens a idéia de que tudo e todos estão intimamente conectados, preceito fundamental da Nova Era. “A prática de combinar técnicas variadas, retiradas de seu contexto original e divorciadas de suas estruturas teóricas, vai se tornando, assim, bem estabelecida no movimento” (AMARAL, 2000a).
Os errantes do subjetivismo New Age não demonstram a pretensão de encontrar uma unidade religiosa completa, posto que é o próprio caminhar por diversas tradições que lhes permite vivenciar situações que preencham sua porosidade religiosa dinâmica. Esta pluralidade de experiências, fruto do processo de secularização, é construída na ausência de sentidos, imediatismo, hedonismo, narcisismo, individualismo e consumismo, características próprias da mentalidade pós-moderna, profundamente introjetadas nos corações contemporâneos.
Os avanços da física e da tecnologia possibilitaram, no século XX, uma nova revolução industrial, que modificou radicalmente as bases da sociedade. O mundo ficou menor com o advento do automóvel, das aeronaves e, sobretudo, com a explosão dos meios de comunicação de massa. A ciência e suas comprovações, sob a insígnia máxima do “cientificamente comprovado”, foram elevadas ao posto de grandes detentoras da verdade, as reais depositárias dos conhecimentos e certezas humanos. Sigmund Freud, considerando que o ser humano atual busca, na religião, amparo, proteção e conforto para o seu mal estar, acreditava que o progresso da ciência faria com que a religião perdesse sua influência sobre o homem. O pai da psicanálise considerava a religião como “neurose obsessiva universal da humanidade”. Contudo, todo este avanço tecnológico não foi suficiente para preencher o vazio existencial do homem e curar as feridas abertas com a secularização do mundo: o homem permanecia um ser a vagar sem referências de onde estava e, principalmente, de onde iria chegar. O mundo deixou aos poucos de ser um lugar encantado e sacralizado, para se tornar um local profano, comum. Muito embora tenha condições de explicar e dominar o espaço natural de forma extraordinária, o ser humano continua a caminhar infeliz pela vida. Visto sob este referencial, o domínio científico, por si só, não conseguiu preencher o perpétuo vazio existencial humano.
Neste novo deserto da consciência humana, a evolução industrial e as ações mercadológicas encontraram solo fértil para se desenvolverem. Frente a elas havia um potencial e vasto mercado consumidor, seres humanos ávidos por algum conteúdo que lhes fornecesse sentido para o viver. Tem início, pois, a corrida desenfreada pelo consumo, a filosofia do “ter para ser”, a idolatria do mercado. Paralelamente, o avanço dos meios de comunicação permitiu ao mundo ocidental acessar o universo oriental, marcadamente místico e pitoresco. Tradições e filosofias do budismo, hinduismo, xamanismo, druidismo, yôga, hermetismo e tantas outras saltaram aos olhos dos novos consumidores, que enxergaram, nestes conhecimentos, uma possibilidade de ressignificarem sua existência.
A humanidade dá início, pois, a uma tentativa de ressacralizar a vida, construindo uma nova verdade a partir do subjetivismo religioso. Neste contexto surge o movimento intitulado Nova Era, um reencantamento do mundo que se dá, em grande parte, através do mercado de consumo, conforme sustentado por Leila Amaral (2000a), ao afirmar que:
os indivíduos, com suas convicções e crenças, recorrem a um mercado de bens simbólicos, os centros holísticos, para satisfazer suas necessidades pessoais. Uma atitude pragmática de aproveitar o aproveitável para atingir fins particulares, sejam eles materiais – saúde, prosperidade – ou espirituais – de enriquecimento e fortalecimento interior, através da afirmação positiva do verdadeiro eu.
A nova consciência que emerge nas sociedades humanas apresenta-se, portanto, plural, resgatando tradições e práticas das mais diversas. É a marca do holismo, que representa o desejo humano para a integração de todas as coisas, valor coerente com o contexto globalizado. Tem-se aí, mais uma vez, a contribuição de Leila Amaral (2000a), quando diz que:
pelo juntar de forças vindas de outras culturas e da natureza, busca-se intensificar a força do próprio desejo: o recompor de uma unidade que fora rompida e, por esse gesto, desencadear sentidos não previstos e descobrir vínculos que se tornaram invisíveis com a modernidade.
Esta concepção holística, que integra todos os seres e perpassa todas as manifestações culturais, é também sustentada pelo físico Fritjof Capra (2003a):
Quanto mais estudamos os principais problemas de nossa época, mais somos levados a perceber que eles não podem ser entendidos isoladamente. São problemas sistêmicos, o que significa que estão interligados e são interdependentes.
Nestas novas águas da construção histórico-social-espiritual humana, surgem diversas correntes Nova Era, que também se afirmam como holísticas ou universais, considerando que o conhecimento do sagrado está além de uma religião em específico, mas que reúne a gnose de toda a humanidade. Estes conhecimentos não precisam necessariamente de ser comprovados empiricamente e têm como meta obter controle sobre o meio ambiente, de modo que objetivos específicos possam ser atingidos. O termo religião, inclusive, é geralmente substituído por magia neste contexto: “o termo magia denota um complexo de crenças e ações sobre as bases e meios, através dos quais pessoas e grupos podem tentar controlar seu meio ambiente para alcançar os seus fins” (AMARAL, 2000a).
O retorno à religiosidade, neste sentido, ocorre através da difusão destas práticas e conceitos esotéricos, ocultos e mágicos. Sociedades iniciáticas, ordens, confrarias e correntes espiritualistas passam a difundir um novo conhecimento religioso, que bebe de diversas fontes. Um retorno plural ao sagrado, à dimensão transcendental, num movimento individual que tem por objetivo mover o coletivo rumo a níveis mais elevados de consciência, ativando nos homens a idéia de que tudo e todos estão intimamente conectados, preceito fundamental da Nova Era. “A prática de combinar técnicas variadas, retiradas de seu contexto original e divorciadas de suas estruturas teóricas, vai se tornando, assim, bem estabelecida no movimento” (AMARAL, 2000a).
Os errantes do subjetivismo New Age não demonstram a pretensão de encontrar uma unidade religiosa completa, posto que é o próprio caminhar por diversas tradições que lhes permite vivenciar situações que preencham sua porosidade religiosa dinâmica. Esta pluralidade de experiências, fruto do processo de secularização, é construída na ausência de sentidos, imediatismo, hedonismo, narcisismo, individualismo e consumismo, características próprias da mentalidade pós-moderna, profundamente introjetadas nos corações contemporâneos.
NOVA ERA E O “SUPERMERCADO” RELIGIOSO
O subjetivismo religioso, encarnado pelo modo Nova Era de ser no mundo, pode representar uma opção oferecida pelas sociedades de consumo para preencher a lacuna existencial do homem, a partir de produtos e serviços que representam uma nova dimensão da busca pelo sagrado. O mercado de consumo aproveita-se deste enlace e cria elementos que vão de encontro a esta nova demanda do ser humano: um supermercado religioso, no qual há ofertas de todos os gêneros, para os mais variados buscadores.
Torna-se notável, pois, o oferecimento de produtos e serviços New Age . Nos shopping centers, os grandes templos do consumo onde ocorre a veneração ao mercado, não é tarefa difícil encontrar lojas específicas de esoterismo, nas quais há uma enorme gama de produtos Nova Era: cristais para energização, incensos, defumadores, pirâmides, figuras da tradição hindu, imagens de Buda, crucifixos, símbolos chineses do Feng Shui, velas aromáticas, livros, revistas, roupas indianas etc. A indústria cinematográfica e a literatura de ficção também se aproveitam deste mercado, lançando, em sua grande maioria, filmes e obras sensacionalistas e de grande impacto propagandístico, exaltando aos consumidores os enigmas de um mundo oculto. Não se pode deixar de citar, ainda, a vasta coletânea de livros do tipo auto-ajuda, que se utilizam do viés esotérico para ilustrar a face mágica da vida e, também, alavancar cada vez mais vendas.
Centros de terapia holística misturam práticas da medicina ocidental a conhecimentos seculares do oriente: a acupuntura, a medicina ayurvédica, os tratamentos da aromaterapia (cura através da utilização de óleos e plantas) e cromoterapia (cura através de luzes coloridas), Reiki (cura através da imposição das mãos, por meio de uma energia “divina”), Qiqong (chi kung chinês), só a título de exemplo. Os adeptos destas terapias alternativas são milhares em todo o mundo, assim como também são muitos os relatos, por parte dos mesmos adeptos, da eficácia destes tratamentos.
Outro fator relevante é o grande aumento do número de adeptos de sociedades secretas, ordens iniciáticas e confrarias, evidenciando duas características comuns no mercado New Age : o trânsito religioso e o modismo. Pode-se citar, a título de exemplo, várias destas sociedades: em contexto internacional, a AMORC (Antiga e Mística Ordem Rosa Cruz), a Sociedade Teosófica , a Ordem da Aurora Dourada (Golden Dawn), a Grande Fraternidade Branca , o Movimento Gnóstico ; no contexto brasileiro, a Sociedade Brasileira de Eubiose , a União do Vegetal , o Santo Daime e tantos outros.
Altamente poroso e dinâmico, o fenômeno espiritual da Nova Era torna-se também um fenômeno de mercado, uma oportunidade ímpar de consolidação de um novo modo de viver baseado no consumo e no descartável, na experiência e valorização do novo e imediato. É de se considerar, entretanto, que o mesmo mercado, se por um lado se aproveita da problemática existencial humana, por outro fornece ao homem subsídios para preencher seus vazios e responder às suas questões, conforme sustenta Leila Amaral (2000a), quando diz que existe também “a possibilidade de o consumo apresentar-se não somente como a oportunidade para a reprodução do capital econômico e social, mas também para produzir valores e significados, espirituais e morais”.
NOVA ERA, CIÊNCIA E FÉ
A meta da ciência e da fé é a mesma: a busca da verdade. Ambas tentam descrever uma realidade, cada qual sob olhares distintos. A ciência considera que hipóteses verificadas e comprovadas empiricamente e fundamentadas por modelos lógico-matemáticos são a descrição mais fiel da realidade. A fé considera que experiências particularizadas afirmam uma realidade que, antes de hipótese, é uma verdade absoluta. A grande diferença, pois, não está no objeto de análise, mas na linguagem e metodologia utilizadas para a compreensão. Uma distinção de referenciais.
A Nova Era abarca um novo contexto social, religioso e tecnológico, no qual as linguagens utilizadas pela religião e pela ciência passam a se aproximar e até mesmo a se confundir: a subjetividade como manifestação de uma experiência que não pode ser descrita em palavras ou outros símbolos, mas apenas compreendida por quem a vivenciou; o pensamento como fonte de transformação da realidade; espaço e tempo relativos; níveis alternativos de consciência; fé. A ciência abre espaço para as possibilidades infinitas da existência, admitindo os paradoxos da matéria (a natureza dual da luz, por exemplo, que é onda e partícula ao mesmo tempo, a depender do referencial) e tecendo suas considerações sobre o não-ser, sobre a anti-matéria. Se antes a razão era objetiva e determinista, agora ela é relativa e aberta à potencialidade das situações.
Pode-se observar que, hodiernamente, tanto nas manifestações de fé New Age quanto na ciência, é o observador quem exerce um papel fundamental nas definições de certo e errado, de real e irreal. É ele quem determina a natureza da existência, é ele quem circunscreve o mundo em que vive. É o olhar particularizado do fragmento que lhe proporciona a idéia do todo e é a experiência da ausência de sentidos ou simplesmente da ausência de referenciais objetivos e racionais que lhe faz vislumbrar o não-existir. A expressão da vivência se torna uma realidade deturpada, pois depende da utilização de uma linguagem que simboliza o que foi experimentado, mas não compreende a experimentação em si. A palavra não é o objeto descrito.
Ciência e fé, na perspectiva Nova Era, já não mais representam realidades diametralmente opostas. Com o avanço da tecnologia na física e neurociência e a evolução das discussões e interpretações religiosas e espiritualistas através das práticas esotéricas e místicas, percebe-se que a linha que separa as duas grandes colunas de sustentação da humanidade – ciência e fé - é, de fato, muito tênue. A linguagem, pura construção social, pode ao mesmo tempo afastar ou aproximar o diálogo entre estes dois fundamentais devaneios humanos, guiada pelo olhar de quem observa e pela dimensão daquilo que é observado.
A Nova Era abarca um novo contexto social, religioso e tecnológico, no qual as linguagens utilizadas pela religião e pela ciência passam a se aproximar e até mesmo a se confundir: a subjetividade como manifestação de uma experiência que não pode ser descrita em palavras ou outros símbolos, mas apenas compreendida por quem a vivenciou; o pensamento como fonte de transformação da realidade; espaço e tempo relativos; níveis alternativos de consciência; fé. A ciência abre espaço para as possibilidades infinitas da existência, admitindo os paradoxos da matéria (a natureza dual da luz, por exemplo, que é onda e partícula ao mesmo tempo, a depender do referencial) e tecendo suas considerações sobre o não-ser, sobre a anti-matéria. Se antes a razão era objetiva e determinista, agora ela é relativa e aberta à potencialidade das situações.
Pode-se observar que, hodiernamente, tanto nas manifestações de fé New Age quanto na ciência, é o observador quem exerce um papel fundamental nas definições de certo e errado, de real e irreal. É ele quem determina a natureza da existência, é ele quem circunscreve o mundo em que vive. É o olhar particularizado do fragmento que lhe proporciona a idéia do todo e é a experiência da ausência de sentidos ou simplesmente da ausência de referenciais objetivos e racionais que lhe faz vislumbrar o não-existir. A expressão da vivência se torna uma realidade deturpada, pois depende da utilização de uma linguagem que simboliza o que foi experimentado, mas não compreende a experimentação em si. A palavra não é o objeto descrito.
Ciência e fé, na perspectiva Nova Era, já não mais representam realidades diametralmente opostas. Com o avanço da tecnologia na física e neurociência e a evolução das discussões e interpretações religiosas e espiritualistas através das práticas esotéricas e místicas, percebe-se que a linha que separa as duas grandes colunas de sustentação da humanidade – ciência e fé - é, de fato, muito tênue. A linguagem, pura construção social, pode ao mesmo tempo afastar ou aproximar o diálogo entre estes dois fundamentais devaneios humanos, guiada pelo olhar de quem observa e pela dimensão daquilo que é observado.
DISPOSIÇÕES FINAIS
A sociedade contemporânea alimenta a busca espiritual do homem, apresentando-lhe uma vasta gama de produtos para o espírito, no intuito de lhe prover conforto físico e mental momentâneos, seguindo a lógica do mundo globalizado. Neste particular, compreender os porquês do fenômeno Nova Era, identificando suas origens, tendências e manifestações atuais, e vislumbrando seu futuro, pode permitir a compreensão da própria existência religiosa humana na contemporaneidade. Pode significar oferecer aos new agers – como são chamados os andarilhos da Nova Era – ferramentas para o auto-conhecimento do próprio movimento, uma alternativa que vai de encontro a um dos princípios fundamentais deste subjetivismo, o “conhece-te a ti mesmo”.
Portanto, compreender este trânsito religioso é compreender não apenas o indivíduo, mas suas manifestações através da criação de organismos coletivos que expressam caráter individualista, através dos quais os andarilhos da Nova Era buscam referências e práticas para alcançarem um tipo de iluminação: “o interesse geral é alcançar o sadhana, o caminho espiritual em direção à auto-realização, através de práticas transformadoras que proporcionam mudança moral e espiritual constante, numa busca relativamente individualizada” (AMARAL, 2000a).
A Nova Era pode não significar a solução final para os problemas de sentido (ou de ausência dele) da humanidade. Como a história nos mostra com clareza, expressões religiosas e espiritualistas ao longo dos séculos não culminaram no esgotamento da sede de sentidos do homem, tampouco na satisfação de suas buscas pelo transcendente. Os new agers são sujeitos históricos, abarcados por uma cultura niilista que encontrou no mercado um acalanto, refúgio temporário para suas tensões. Deste movimento podem surgir novas tradições ou mesmo releituras consistentes e coerentes de conhecimentos outrora ditos como consolidados. A Nova Era não estabelece, contudo, novas certezas ao ser humano; pelo contrário, ao mostrar que a verdade é uma terra sem caminhos, contribui para que os homens observem com mais naturalidade a falta de garantias que a existência lhes proporciona, ensinando-lhes que a natureza da vida pode ser, realmente, porosa e dinâmica: um eterno movimento de ir e vir, de significar e reler – uma troca casual e não-linear de olhares com o eterno.
Portanto, compreender este trânsito religioso é compreender não apenas o indivíduo, mas suas manifestações através da criação de organismos coletivos que expressam caráter individualista, através dos quais os andarilhos da Nova Era buscam referências e práticas para alcançarem um tipo de iluminação: “o interesse geral é alcançar o sadhana, o caminho espiritual em direção à auto-realização, através de práticas transformadoras que proporcionam mudança moral e espiritual constante, numa busca relativamente individualizada” (AMARAL, 2000a).
A Nova Era pode não significar a solução final para os problemas de sentido (ou de ausência dele) da humanidade. Como a história nos mostra com clareza, expressões religiosas e espiritualistas ao longo dos séculos não culminaram no esgotamento da sede de sentidos do homem, tampouco na satisfação de suas buscas pelo transcendente. Os new agers são sujeitos históricos, abarcados por uma cultura niilista que encontrou no mercado um acalanto, refúgio temporário para suas tensões. Deste movimento podem surgir novas tradições ou mesmo releituras consistentes e coerentes de conhecimentos outrora ditos como consolidados. A Nova Era não estabelece, contudo, novas certezas ao ser humano; pelo contrário, ao mostrar que a verdade é uma terra sem caminhos, contribui para que os homens observem com mais naturalidade a falta de garantias que a existência lhes proporciona, ensinando-lhes que a natureza da vida pode ser, realmente, porosa e dinâmica: um eterno movimento de ir e vir, de significar e reler – uma troca casual e não-linear de olhares com o eterno.
REFERÊNCIAS
_____AMARAL , Leila . Carnaval da alma : comunidade, essência e sincretismo na nova era. Petrópolis: Vozes, 2000a. 230p.
_____AMARAL, Leila . Os errantes da nova era e sua religiosidade caleidoscópica . Cadernos de Ciências Sociais: [belo Horizonte], Belo Horizonte , v.3, n.4 , p. 19-32, dez. 1993.
_____BLAVATSKY, H. P. Glossário teosófico . São Paulo: Ground, [1988?]. 778p
_____BOFF, Leonardo. Nova era : a civilização planetária: desafios à sociedade e ao cristianismo. 3.ed. São Paulo: Ática, 2000. 87p.
_____CAPRA, Fritjof. O tao da física . 20.ed. São Paulo: Cultrix, 2000. 274p.
_____D`ANDREA, Anthony. O self perfeito e a nova era . São Paulo: Edições Loyola, 2000. 237p.
_____ELIADE, Mircea. Ocultismo, bruxaria e correntes culturais : ensaios em religiões comparadas. Belo Horizonte: Interlivros, 1979.
_____ELIADE , Mircea . O sagrado e o profano : a essência das religiões. São Paulo: Martins Fontes, 1996a. 191p.
_____ELIADE, Mircea . Tratado de história das religiões . 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998. 479p.
_____LIBÂNIO, João Batista. Nova era : seus desafios à fé cristã. Horizonte : Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte , v.1, n.2 , p.7-16, 2º Sem. 1997.
_____SUSIN, Luiz Carlos. O espírito e a nova era . Revista Eclesiástica Brasileira : Reb, Petrópolis, RJ , v.56, n.222, p.308-330, jun. 1996.
_____THOMAS, Keith. Religião e o declínio da magia . 1.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1991. 724p.
Fonte: http://www.cienciasdareligiao.com.br/novaera.html
Nenhum comentário:
Postar um comentário